"Ele herdou do Stálin
Tudo que sempre quis
Gosta do Berlusconi
De caçar também
O Serguei é antigay
Vive sem amar
Ele pensa que esse mundo
É bola de bilhar
Prende a ambientalista
Mata a jornalista
Amigo vira inimigo
Caso se arriscar
Plutônio popular
Síria nuclear
Coração da Sibéria
Se acha um Czar
Nega o mês de outubro
Falsa unidade
Em Biriulevo é barato
Quero imigrar
Chechênia é do Alá
Não tradicional
Inguchétia é longe
Rodina vai quebrar"
(Cañotus, Serguei)
Lavrov: "As tentativas de resolver a crise por sanções unilaterais ameaçam a paz e a estabilidade internacional" Foto: Photoshot/Vostock-Photo
Infelizmente, os meios de comunicação continuam a espalhar boatos, informações distorcidas e até mentiras descaradas. Recentemente, a Ucrânia alegou que sua artilharia destruiu uma coluna de blindados que supostamente cruzaram a fronteira da Rússia para a Ucrânia, e mídia britânica disse ter testemunhado a incursão. Nenhuma evidência, no entanto, foi apresentada, e nem mesmo o Departamento de Estado dos EUA confirmou o incidente. Vemos todas essas histórias como parte de uma guerra de informação.
Nossa posição é nítida – queremos paz na Ucrânia, que só pode ser alcançada por meio de um amplo diálogo nacional em que todas as regiões e todas as forças políticas do país participem. Isso é o que a Rússia, os EUA, a UE e a Ucrânia acordaram em Genebra, em 17 de abril. No recente encontro em Berlim, envolvendo os ministros das Relações Exteriores da Rússia, Alemanha, França e Ucrânia, ninguém se opôs à confirmação dos itens dispostos na Declaração de Genebra.
"A verdade tem que vir à tona. Essa foi a nossa principal demanda na recente reunião do Conselho de Segurança da ONU, enquanto alguns Estados-membros demonstraram pouco entusiasmo em prosseguir a investigação de uma forma transparente e responsável."
O importante para Kiev é cessar as investidas de guerra e abandonar a ilusão de que a profunda crise na Ucrânia pode ser resolvida vencendo uma guerra contra o seu próprio povo. É profundamente triste ver que os EUA e a UE continuam apoiando cegamente qualquer iniciativa de Kiev.
Vamos relembrar outro documento que Kiev e o Ocidente tentam esquecer. Em 21 de fevereiro, um acordo sobre a resolução da crise foi assinado por Víktor Ianukovitch, Arseni Iatseniuk, Vitáli Klitschko e Oleg Tiagnibok, e acompanhado pelos ministros das Relações Exteriores da França, Alemanha e Polônia. Eles dizem agora que o acordo “foi atropelado pelos acontecimentos”, porque [o ex-presidente da Ucrânia] Ianukovitch deixou o país. Mas deixe-me lembrar os meus colegas que o acordo de 21 de fevereiro listava como prioridade número um o compromisso de um governo de unidade nacional. Será que esse objetivo só depende do próprio Ianukovitch?
A unidade nacional não é o princípio universal para qualquer país que queira permanecer integrado? Em vez de honrar esse compromisso, os líderes da oposição organizaram um golpe armado e declararam publicamente que haviam criado um “governo de vencedores”. Infelizmente, a lógica do “vencedor leva tudo” continua impulsionando as ações de Kiev, resultando em milhares de vítimas entre civis e em centenas de milhares de refugiados e pessoas desalojadas, bem como na quase destruição total da infraestrutura em muitas cidades e vilarejos no leste da Ucrânia.
As tentativas de resolver a crise por sanções unilaterais fora do quadro das decisões do Conselho de Segurança da ONU ameaçam a paz e a estabilidade internacional. Tais tentativas são contraproducentes e contradizem as normas e princípios do direito internacional. É absolutamente inaceitável dialogar com a Rússia – ou qualquer país em questão – na língua de ultimatos e medidas coercivas.
Nossa resposta a medidas unilaterais por parte dos Estados Unidos, da União Europeia e de alguns outros países tem sido equilibrada e em consonância com os direitos e obrigações da Rússia no âmbito de tratados internacionais, incluindo a Organização Mundial do Comércio.
Não é de forma alguma a nossa escolha, mas não deve haver dúvida de que vamos fazer o que for necessário para proteger os nossos interesses legítimos, incluindo os interesses de segurança nacional em todas as suas dimensões. Essa foi a base para a nossa decisão de restringir, durante o período de um ano, a importação de produtos agrícolas e alimentares de vários Estados que adotaram sanções econômicas setoriais contra a Rússia. Mas a Rússia não deseja seguir por essa estrada de agravamento da situação. Esperamos que os EUA, a União Europeia e outros deem ouvidos à razão e coloquem um fim a esse círculo vicioso e sem sentido iniciado por eles.
Queda do avião MH17
A derrubada do avião da Malásia é uma tragédia chocante. Desde que isso aconteceu, em 17 de julho, pedimos por uma investigação internacional pública e objetiva. É impossível explicar por que as autoridades ucranianas, que carregam toda a responsabilidade pela segurança dos voos internacionais sobre o território do seu país, não tinham fechado o espaço aéreo sobre a área de combate.
A Resolução 2.166, adotada pelo Conselho de Segurança da ONU em 21 de julho, prevê uma investigação completa, exaustiva e independente sobre o incidente, conforme as diretrizes de aviação civil internacional. Infelizmente, desde o início testemunhamos tentativas de esconder evidências e impedir a implementação dessa resolução.
O pedido de cessar-fogo na área do acidente foi ignorado pelas autoridades ucranianas por mais de 10 dias, e a nossa proposta de cumprir integralmente a Resolução 2.166 foi bloqueada no Conselho de Segurança pelos EUA, Reino Unido e Lituânia.
Paralelamente, esses mesmos países e alguns outros começaram a disseminar acusações infundadas contra a Rússia. Deixe-me reiterar que a Rússia está totalmente comprometida com a investigação internacional em plena conformidade com a Resolução 2.166. Gostaríamos de ver a Organização Internacional da Aviação Civil (Icao) assumir um papel mais ativo nesse assunto, e acreditamos que a ONU e a Icao devem coordenar esforços internacionais para garantir resultados imediatos e convincentes da investigação.
A Rússia é o único país que oficialmente apresentou à comunidade internacional dados relativos ao incidente, que foram coletados com a nossa capacidade de monitoramento do espaço. Outros ainda devem apresentar as provas que possuem.
Nós propusemos formalmente uma série de perguntas que permanecem sem resposta. Por exemplo, onde estão as transcrições do contato entre os pilotos do MH17 e os controladores aéreos ucranianos e por que elas não foram apresentadas para a comunidade internacional? Por que os controladores instruíram o avião a entrar na zona de conflito? O que um avião da Força Aérea da Ucrânia fazia nas imediações do Boeing da Malásia pouco antes do incidente? O que está acontecendo com os destroços no local do acidente e por que não esse material não vem sendo exaustivamente analisado pelas autoridades de investigação internacionais competentes?
"Nossa resposta a medidas unilaterais por parte dos Estados Unidos, da União Europeia e de alguns outros países tem sido equilibrada e em consonância com os direitos e obrigações da Rússia no âmbito de tratados internacionais, incluindo a Organização Mundial do Comércio."
Até que ponto uma investigação objetiva e independente pode ser garantida sem acesso livre e seguro de especialistas ao local do acidente, onde Kiev continua a sua atividade guerra em violação à Resolução 2.166? E onde está a evidência documentada dos pedidos feitos pelas autoridades norte-americanas sobre as causas do abate da aeronave? Esperamos obter respostas para estas e outras perguntas, tanto dos Estados que assumiram um papel de liderança na investigação internacional, como daqueles que fizeram declarações públicas infundadas.
A verdade deve vir à tona. Essa foi a nossa principal demanda na recente reunião do Conselho de Segurança da ONU, enquanto alguns Estados-membros demonstraram pouco entusiasmo em prosseguir a investigação de uma forma transparente e responsável. Não podemos permitir que o inquérito do acidente com o MH17 seja manipulado e caia no esquecimento, o que aconteceu com investigações em muitas tragédias ucranianas, incluindo o ataque de um franco-atirador contra civis em Kiev em fevereiro, os massacres em Odessa e Marioupol em maio, e outros. Estamos determinados a levar à Justiça todos aqueles que são responsáveis por esses crimes.
Situação humanitária
A situação humanitária nas regiões ucranianas de Lugansk e Donetsk é catastrófica e continua a se deteriorar. E não é apenas a nossa opinião. Essa avaliação é amplamente compartilhada nas Nações Unidas, incluindo o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários, no Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e no Conselho da Europa.
Mais de 2.000 pessoas já foram mortas e mais de 5.000 ficaram feridas, incluindo muitas crianças. Há escassez aguda de alimentos e medicamentos, além do crescente risco de surtos de doenças infecciosas. Mais de 200.000 pessoas em Lugansk estão vivendo sem eletricidade, água potável e meios de comunicação. Diversas pessoas fugiram da área de conflito. Desde 1º de abril, cerca de 775 mil cidadãos ucranianos entraram no território russo, e 190 mil ucranianos solicitaram estatuto de refugiado na Rússia.
Foram criados abrigos temporários em nosso país para acomodar dezenas de milhares de refugiados. Diante dessas circunstâncias, é fundamental garantir o fornecimento imediato de ajuda humanitária ao povo no sudeste da Ucrânia. As questões humanitárias devem reunir todos os povos que agem de boa fé, tentando aliviar o sofrimento das pessoas em extrema necessidade – especialmente mulheres, crianças e idosos.
A Rússia, em colaboração com o CICV, enviou um comboio humanitário de cerca de 300 caminhões que transportavam 2.000 toneladas de suprimentos médicos, alimentos, sacos de dormir, geradores de energia e outros produtos básicos. O comboio estava pronto para seguir adiante em 17 de agosto, mas foi adiado sobretudo devido às táticas de procrastinação empregadas pelas autoridades de Kiev, apesar de terem reconhecido a carga de ajuda humanitária sob os auspícios do CICV, e terem mandado os guardas de fronteira e funcionários aduaneiros da Ucrânia a monitorar todos os procedimentos no posto de controle russo perto de Donetsk.
Pedimos ao governo ucraniano para cumprir as suas promessas e facilitar a passagem segura e desimpedida dos futuros veículos com assistência humanitária. Esperamos também que os nossos parceiros do Ocidente e organizações internacionais entendam a magnitude do desastre e contribuam concretamente para a satisfação das necessidades básicas da população civil no sudeste da Ucrânia.
Mas a tarefa central dos esforços para acabar com o sofrimento de civis na Ucrânia continua, naturalmente, com a declaração de cessar-fogo. Pessoas estão morrendo, e a infraestrutura civil está sendo destruída a cada dia. Acreditamos firmemente na importância incondicional de um cessar-fogo, que abrirá caminho para um diálogo político sério e um processo de reforma constitucional com a participação de todas as regiões e todos os círculos políticos da Ucrânia, conforme acordado pela UE, Rússia, Ucrânia e EUA na Declaração de Genebra, em 17 de abril.
MOSCOU - O banner enorme foi desenrolado em 11 de abril diante de uma das maiores livrarias de Moscou, a Dom Knigi.
O local fica em frente a uma agência do Citibank, a uma loja de sorvetes da marca Baskin-Robbins e a uma filial da Dunkin' Donuts, e no mesmo quarteirão de um cinema que atualmente exibe "Capitão América 2: O Soldado Invernal".
Além dos dizeres "Quinta Coluna" e "Estranhos Entre Nós", o banner mostrava retratos em preto e branco de três conhecidas figuras da oposição ao governo russo e de dois roqueiros dissidentes da época soviética, assim como dois alienígenas de aparência ameaçadora. Um deles segura uma pasta com a fita branca que virou símbolo dos protestos políticos contra o presidente Vladimir Putin e o governo russo.
Desde o momento em que a Rússia invadiu e anexou a Crimeia, houve um novo esfriamento nas relações com o Ocidente e um nacionalismo sinistro, incitado pela televisão sob controle estatal e pelo próprio Putin, se dissemina nessa capital intranquila.
"Alguns políticos ocidentais já estão nos ameaçando não só com sanções, mas também com a perspectiva de problemas internos cada vez mais graves", disse o presidente em um discurso anunciando planos para a Federação Russa absorver a Crimeia.
"Eu gostaria de saber exatamente o que eles pretendem: ações a cargo de uma quinta coluna, esse punhado diversificado de 'traidores da pátria', ou será que esperam nos colocar em uma situação social e econômica pior a fim de provocar a insatisfação pública?"
Hoje, Moscou é uma cidade de perfil internacional, onde skatistas no parque Gorky usam bonés dos Yankees de Nova York que compraram durante férias nos Estados Unidos, e onde bolsas de grifes francesas e italianas podem ser provenientes de Paris ou Milão, ou de uma das butiques na praça Vermelha.
Desde a incursão militar na Crimeia, porém, veem-se bandeiras russas penduradas nas janelas de edifícios por toda a cidade.
Agora também há um site cujo nome traduzido significa "traidor.net", com fotos e citações de figuras públicas contrárias à política da Rússia em relação à Ucrânia. O site convida os visitantes a "indicarem um traidor".
Sob a direção de Putin, um comitê liderado por seu chefe de gabinete está desenvolvendo uma nova "política estatal para a cultura".
Essa política, que possivelmente se tornará lei, enfatiza que "a Rússia não é a Europa" e instiga "uma rejeição aos princípios do multiculturalismo e da tolerância".
O projeto pretende salientar que a Rússia é "uma civilização singular com um governo de Estado", segundo reportagens que citaram Vladimir Tolstoi, conselheiro presidencial para cultura.
O site de notícias russo znak.com também relatou recentemente que uma série popular de livros de matemática seria excluída da lista oficial de textos educativos recomendados, pois usava de forma exagerada personagens de contos de fadas e estrangeiros em suas ilustrações.
"O que vemos nas primeiras páginas? Gnomos e Branca de Neve, que são representativos de uma cultura de língua estrangeira", declarou ao site Lyubov Ulyakhina, especialista da Academia Russa de Educação.
"Aqui há macacos, Chapeuzinho Vermelho", continuou ela, "e dos 119 personagens desenhados somente nove são ligados à cultura russa. Não é uma questão de mero patriotismo, mas na nossa mentalidade isso não é engraçado."
Este mês, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia advertiu seus cidadãos para que não viajem para países que tenham tratados de extradição com os Estados Unidos.
A Chancelaria alega que o governo Obama "está tentando impor uma prática rotineira de 'caçar' cidadãos russos em terceiros países, visando sua subsequente extradição e condenação nos EUA, geralmente com base em acusações questionáveis".
Em alguns casos, a linguagem xenofóbica é acompanhada de perseguição mais acirrada a adversários políticos e a alguns veículos da mídia.
No dia em que forças russas foram enviadas à Crimeia, Aleksei A. Navalny, o líder da oposição e blogueiro que denuncia a corrupção, foi posto em prisão domiciliar devido a um dos vários processos -amplamente considerados como de motivação política- movidos contra ele muito antes de se pronunciar contra as políticas de Putin em relação à Ucrânia.
Em 11 de abril, promotores anunciaram um novo processo contra Navalny, desta vez envolvendo acusações de que ele e seu irmão Oleg roubaram cerca de US$ 1 milhão (R$ 2,2 milhões) ao cobrar exageradamente por serviços de entrega ligados à empresa de cestaria de seus pais.
O grupo Glavplakat, até então desconhecido, publicou uma declaração em seu próprio site assumindo a responsabilidade pelo banner diante da livraria e prometeu mais arte nas ruas em apoio a sua cruzada contra os traidores.
Boris Nemtsov, velho líder da oposição e ex-primeiro-ministro suplente na gestão de Boris Yeltsin, que figurava no banner, escreveu no Facebook que a situação atual parece pior do que durante a Guerra Fria.
"Em minha opinião, nem na União Soviética as coisas eram desse jeito", comentou Nemtsov.
Dmitry Kiselyov, um conhecido apresentador de televisão, declarou durante um noticiário noturno em março que a Rússia continua sendo "o único país no mundo capaz de transformar os EUA em cinza radioativa". NYT, 22.04.2014
Vladimir Putin usou a força, por interpostas pessoas, para tirar a Crimeia da Ucrânia. Foi grátis, a menos que alguém leve a sério as sanções adotadas pelos Estados Unidos e pela Europa.
Agora, repete o cenário em cidades do Leste ucraniano. Vai sair grátis de novo. Vale o que escreve Patrick Johnson, colaborador do "site" Geopoliticalmonitor: "O governo em Kiev [a capital ucraniana] é uma edificação apodrecida, tanto econômica como politicamente, e carece da legitimidade necessária para usar a violência contra os rebelados no leste, por mais que as ações destes sejam uma traição. Sem uma ação decisiva de Kiev, o movimento de protesto no leste continuará a se disseminar".
Ontem, as autoridades ucranianas deram o mais claro sinal de que não estão em condições de adotar "uma ação decisiva": requereram às Nações Unidas tropas para enfrentar o levante na sua parte oriental, sabendo perfeitamente que a ONU só poderia atender o pedido se o Conselho de Segurança o aprovasse, o que é impossível porque a Rússia tem poder de veto --e o usaria.
Parece claro, pois, que é correta a análise de John Lough do programa Rússia e Eurásia da Chatham House, centro britânico de análises e pesquisas: "Os líderes ocidentais precisam entender que estão lidando com uma líder russo mais focado nas suas metas na Ucrânia do que nos riscos envolvidos em alcançá-las".
Só discordo de que haja de fato riscos envolvidos: se o Ocidente descarta, como o faz reiteradamente, o uso da força para responder às ações de Putin, não há perigo para o presidente da Rússia, na medida em que as sanções mal fazem cócegas. Na verdade, as próprias ações é que trazem algum risco, não a reação do Ocidente. Basta saber que tanto a Bolsa de Moscou quanto o rublo caíram ontem, pelo medo de que a crise russo-ucraniana chegue a um ponto de ebulição.
O líder russo com o qual estão lidando os ocidentais "provavelmente possui todas as qualidades que foi treinado para ter como agente da KGB: crueldade e arrogância", escreve Alexander Motyl, professor de Ciência Política na Universidade Rutgers (Newark).
Um comandante empenhado em restaurar um mínimo do império que a Rússia já foi. Por isso, desestabiliza a Ucrânia para disputá-la à União Europeia, em favor da qual houve o levante de meses atrás que levou à queda do presidente pró-Rússia Viktor Yanukovich. Na prática, Putin luta apenas por pedaços da Ucrânia (a Crimeia e a parte oriental do país), já que o restante definiu-se, na rua, pela aliança com a Europa. O que é curioso é o apoio que certos setores esquerdistas no Brasil parecem dar a Putin pela simples razão de que ele se opõe aos Estados Unidos.
Putin é um reacionário, contrário à liberdade de culto, à igualdade de gênero, aos direitos das minorias sexuais. Seus admiradores na Europa são o que há de pior, ao menos do meu ponto de vista: os neonazistas do Jobbik húngaro e do grego Amanhecer Dourado, por exemplo. Pobre Ucrânia, em que parte dos anti-Rússia são também fascistóides.
Plano do presidente russo é desestabilizar o governo de Kiev no período que antecede as eleições de 25 de maio
A ÚLTIMA COISA QUE PUTIN QUER NO PLEITO DO MÊS QUE VEM É UM RESULTADO QUE FAÇA A UCRÂNIA SE INCLINAR RUMO À EUROPA
DO "FINANCIAL TIMES"
Desde que a Rússia interveio na Crimeia, o Ocidente está imaginando qual será a próxima jogada de Vladimir Putin. Será que a nova aquisição do presidente russo bastará para saciar seu apetite? Até que ponto ele se disporia a permitir que a Ucrânia, agora reduzida, saísse da órbita de Moscou?
Nas últimas semanas, Putin deu sua resposta, e ela é firmemente negativa para as duas perguntas.
É verdade que ele propôs uma solução diplomática, mas isso envolvia Kiev aceitar tanto sua exclusão da Otan (Organização para o Tratado do Atlântico Norte)quanto um plano que tornaria a Ucrânia uma federação concebida por Moscou.
Ostensivamente destinado a proteger os cidadãos ucranianos que falam russo, o plano solaparia a Ucrânia como Estado unitário. A ideia foi abandonada depois que os EUA recusaram a imposição de um acordo.
Desde então, Putin retomou uma política mais conhecida, de ameaças bélicas, com o objetivo de minar o governo interino de Kiev.
Moscou também reforçou seus ataques econômicos. A Gazprom lealmente se apresentou para cobrar contas de gás atrasadas e ameaçou praticamente dobrar o preço que a Ucrânia paga.
Agora, em uma série de ações que parecem semelhantes aos primeiros estágios de sua intervenção na Crimeia, manifestantes pró-russos não identificados tomaram edifícios do governo em três cidades do leste da Ucrânia.
Sob a capa de um apelo pela calma, nesta semana, o mais rico dos oligarcas ucranianos, Rinat Akhmetov, outro antigo aliado de Yanukovich, pareceu expressar simpatia por esses protestos.
Não se sabe ao certo se Moscou engendrou diretamente essas ações, ainda que a organização e o treinamento dos envolvidos tenham despertado suspeitas.
O que não pode ser negado é que Putin criou uma atmosfera favorável à inquietação no leste da Ucrânia.
Seu objetivo é muito claro: ele deseja desestabilizar o país no período que antecede a eleição de 25 de maio.
A última coisa que Putin desejaria seria um resultado favorável a uma Ucrânia inclinada ao Ocidente.
É difícil determinar até que ponto Putin está preparado a avançar.
O que quer que aconteça a seguir, o Ocidente pensa em deixar duas coisas claras para Moscou.
A primeira é que Kiev tem tanto o direito quanto o dever de restaurar a ordem nas cidades do leste.
Segundo, Putin será lembrado de que as sanções impostas a autoridades e empresas russas foram só o começo. A ideia é tentar mostrar firmeza até que ele desista.
A Crimeia já viu conflitos internacionais no passado. A Guerra da Crimeia, de 1853 a 1856, foi um desastre para todas as partes envolvidas, tendo causado mais de 300 mil mortes --80 mil em combate, 40 mil por ferimentos e mais de 100 mil por doença. O Exército britânico, por exemplo, perdeu 2.755 homens em ação, 2.019 por ferimentos e mais de 16 mil por doença.
A Guerra da Crimeia envolveu uma aliança entre o Império Otomano, a Grã-Bretanha, a França e a Sardenha contra uma Rússia expansionista. Resultou de erros fatais de líderes ineptos, que também respondiam a uma opinião pública ativa, alimentada por notícias rapidamente distribuídas pelos novos cabos telegráficos, instalados inicialmente no mar Negro por franceses, em 1854, e, em seguida, por britânicos, em 1855. Depois disso, as notícias chegavam a Londres em um dia. A Guerra da Crimeia foi o primeiro conflito a ser registrado pela fotografia, então uma nova invenção. Mas o conflito foi mais notável pelos múltiplos erros logísticos, táticos e médicos de todos os envolvidos.
A Rússia desejava um porto de águas quentes no mar Negro e avançavam rumo ao sul, sobre território governado havia muito pelos turcos otomanos. Os russos alegavam defender os cristãos ortodoxos contra o domínio muçulmano; a França reivindicava o direito de proteger os católicos da região. Isso, porém, eram desculpas para camuflar objetivos geoestratégicos e financeiros conflitantes no mar Negro e no leste do Mediterrâneo.
A Rússia perdeu no médio prazo, e também os otomanos. O conflito produziu momentos memoráveis. Os russos resistiram por mais de um ano na fortaleza de Sebastopol. A batalha de Balaclava entrou para a história pelo desastroso avanço da brigada leve da cavalaria britânica contra os canhões russos, celebrada em famoso poema de lorde Tennyson.
As consequências da guerra foram múltiplas. No Báltico, Immanuel Nobel, pai de Alfred, o criador do Prêmio Nobel, ajudou a Rússia ao adaptar explosivos industriais, nitroglicerina e pólvora para o uso em minas navais. Nos campos de batalha da Crimeia, Florence Nightingale e a enfermeira jamaicana May Seacole revolucionaram o tratamento de soldados feridos.
A Rússia terminou por se expandir e incorporar a península da Crimeia, estabelecendo sua frota no mar Negro. Em 1954, o líder soviético Nikita Khruschov decidiu que a Crimeia seria parte da Ucrânia, claramente não prevendo a cisão da União Soviética.
Mas duvido de que o presidente Putin e o presidente Obama saibam muito sobre tudo isso, enquanto tropeçam rumo a uma nova batalha de vontades sobre um território onde ecoam precedentes muito antigos e muito infelizes.
Os acontecimentos recentes na Ucrânia lembram os protestos da oposição na praça Bolotnaia, em Moscou Foto: Reuters
Na Na tentativa de brecar os radicais, Vitáli Klitschko, renomado pugilista e líder do partido Aliança Democrática Ucraniana pela Reforma, recebeu uma descarga de extintor de incêndio dos seus próprios correligionários. Enquanto isso, Arseni Iatseniuk, líder da facção de oposição Batkivschena, e Oleg Tiagnibok, líder do partido nacionalista União Ucraniana Svoboda, preferiram não ficar no caminho dos ativistas radicais de direita.
As coisas chegaram a tal ponto que os radicais passaram a chamar os líderes dos partidos parlamentares de “impotentes e indecisos" ou “dançarinos de Maidan”, por serem incapazes de derrubar o poder. Eles se consideram a única força “pronta para realmente combater o regime”. Pela lógica, o próximo passo deverá ser a indicação de um líder próprio de direita, que pretende roubar a cena do atual trio de líderes oposicionistas.
Serguêi Markov, vice-reitor da Universidade de Economia Plekhanov e membro da Câmara Pública, considera perigoso o flerte dos liberais ucranianos pró-ocidentais com os nacionalistas. No entanto, está convencido de que “hoje estamos testemunhando a cisão entre esses dois grupos”. “Os recentes confrontos submetem essa aliança a um questionamento. Apesar disso, por enquanto eles planejam chegar ao poder com a ajuda dos nacionalistas”, diz Markov.
O educador também está convencido de que essa ameaça não se aplica à Rússia. "A questão é que a possibilidade da aliança entre nacionalistas e liberais surge devido ao fato de que, na Ucrânia, o nacionalismo tem um caráter antirrusso”, explica. “De acordo com todas as teorias, na Rússia, os líderes das revoluções laranja teriam que receber, ao mesmo tempo, o apoio do Ocidente e daqueles que têm tendências nacionalistas.”
O chanceler russo Serguêi Lavrov, que se referiu aos acontecimentos como “fora de controle”, propôs a mediação de Moscou nas negociações entre as autoridades locais e os manifestantes da Praça Maidan.
Futuro incerto
Os acontecimentos recentes na Ucrânia lembram os protestos da oposição na praça Bolotnaia, em Moscou. “Exatamente da mesma maneira, pessoas preparadas, portando objetos perfurantes e cortantes lançavam-se sobre a polícia, fazendo uso de pedaços de pavimento e pedras”, relembra Maksim Grigoriev, também membro da Câmara Pública e presidente da Fundação de Pesquisa da Democracia.
“O que está acontecendo agora na Maidan é um exemplo do que poderia ter se transformado a praça Bolotnaia se o governo e os órgãos de aplicação da lei russos não tivessem assumido uma postura civilizada, porém rigorosa”, acrescenta Grigoriev. Segundo ele, os ativistas acreditam que podem controlar a situação e fazem uso de diferentes forças políticas, incluindo extremistas, mas acabam sendo incapazes de controlá-las.
O diretor do Centro de Tecnologias Políticas na Ucrânia, George Chijov, salientou que a situação no país está se tornando cada vez mais imprevisível. “Tanto o governo quanto a oposição sistemática entendem que a situação pode se desenvolver de forma imprevisível e que nesse novo contexto poderá não haver lugar nem para um nem para outro”, afirma. Chijov descartou ainda a possibilidade de um afastamento antecipado do presidente Viktor Ianukovitch.
Fonte: Gazeta Russa, 24.01.2014 ("Jornaleco pró-Putin", se não fosse, não mais existiria)